Plantas do género Tabernaemontana, abundantes em Moçambique, são estudadas a nível global pelo potencial anticancerígeno. O investigador moçambicano Silva Mujovo explica como é que o País está integrado na pesquisa científica. As plantas pertencentes ao género Tabernaemontana (família Apocynaceae) são comuns em várias zonas de Moçambique. São organismos que contêm alcalóides indólicos, um componente com actividade anticancerígena em estudos laboratoriais e animais, com efeitos directos em linhas tumorais. Ainda não existem ensaios clínicos em humanos para confirmar segurança ou eficácia terapêutica, mas as investigações científicas avançam e Moçambique marca presença. O cientista moçambicano Silva Mujovo, docente aposentado (mas activo, no terreno), integra uma antiga parceria entre a Universidade Pedagógica de Maputo e a Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, centrada no estudo de plantas medicinais com propriedades terapêuticas. O investigador realiza expedições regulares a zonas rurais moçambicanas, onde entrevista comunidades e recolhe amostras vegetais para investigação. Em 2018, numa dessas deslocações, ao distrito da Moamba (norte da província de Maputo), uma das plantas que colheu foi do género Tabernaemontana. “Em Moçambique não temos equipamentos necessários para realizar testes laboratoriais. Por isso, enviamos as amostras para a Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa”, explica Mujovo. Em busca de validação científica Da planta identificada em Moçambique, foi extraído um composto para testes que tiveram lugar em vários países, nomeadamente Índia, China, EUA, México, Austrália, Canadá, Israel e Japão. Em todos estes países, os resultados foram favoráveis ​​para o potencial anticancerígeno, e o grupo de investigadores obteve uma patente em 2020, que garante uma forma de exclusividade sobre produção de medicamentos, incluindo a conclusão dos estudos sobre os seus possíveis efeitos secundários. Os resultados foram favoráveis ​​para o potencial anticancerígeno e o grupo de investigadores obteve uma patente, em 2020, que garante uma forma de exclusividade sobre a produção de medicamentos “Se não forem identificados efeitos adversos, avançaremos para a produção de medicamentos e sua comercialização. Alguns países parceiros já se mostram prontos para iniciar a aplicação clínica da fórmula”, revelou Mujovo. Segundo refere, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já foi informada sobre o desenvolvimento, mas o seu posicionamento oficial será anunciado apenas após a divulgação completa dos resultados sobre a segurança do composto, com data incerta. “Será em breve”, acredita Silva Mujovo. Protecção legal e benefícios para Moçambique Para garantir a propriedade intelectual e salvaguardar os direitos das instituições envolvidas, foi firmado um acordo multilateral entre a Universidade do Porto, a Universidade de Lisboa, a Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa e a Universidade Pedagógica de Maputo. Este entendimento assegura que o conhecimento científico gerado não pode ser utilizado ou comercializado sem a autorização conjunta das entidades, o que permite a protecção dos investigadores e parceiros da investigação. O acordo abre portas a eventuais ganhos económicos para os intervenientes, com expectativas para o sector farmacêutico de Moçambique, através da produção local, distribuição e venda. Uma linha de investigação em desenvolvimento A maioria dos resultados são “in vitro”, excepção feita à investigação realizada em animais. Ainda não existem estudos clínicos em humanos. A diversidade química destes alcalóides — voacangine, aparricina, conophylline, taberdivarinas — é grande e todos têm sido alvo de investigação farmacológica, farmacocinética e ao nível da toxicidade Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), só em 2022, mais de 900 mil novos casos de cancro foram registados no continente africano, com mais de 580 mil mortes. O cancro do colo do útero permanece como a principal causa de morte por cancro entre as mulheres, representando mais de 22% de todos os óbitos (apesar da existência de uma vacina e ser evitável). Já o cancro da mama é o mais frequentemente diagnosticado. Em Moçambique, a situação é particularmente alarmante. O cancro do colo do útero representa 34,6% dos casos entre as mulheres, seguido pelo cancro da mama com 12,8%. A taxa de mortalidade prematura por cancro no País é de 10,4%, colocando Moçambique na oitava posição entre mais de 180 países, segundo dados das Nações Unidas. Quais os compostos que estão sob o microscópio? Vários estudos identificaram compostos isolados de espécies do género Tabernaemontana com actividade contra células cancerígenas, incluindo de cancro da mama, cólon, próstata, leucemia e melanoma, entre outros. Muitos alcalóides (indólicos e bisindólicos) demonstraram induzir apoptose, ou seja, a morte celular programada, promovendo o bloqueio do ciclo das células, a redução da expressão de determinadas proteínas e a reversão da resistência a múltiplos fármacos. Eis uma lista de publicações sobre o tema: Isolamento, identificação e avaliação de actividade anti-leucémica (tinyurl.com/y6rpvw27): um estudo em www.scielo.br identificou nove alcalóides capazes de induzir apoptose em células de leucemia humana em cultura “in vitro” Alcalóides revertem a multirresistência em células cancerígenas (tinyurl.com/6tannjfm): artigo sobre investigação da iMed. ULisboa que demonstra que determinados alcalóides podem inibir “bombas” de resistência (glicoproteína P), tornando células tumorais multidrogo resistentes mais sensíveis aos fármacos Análise de alcalóides e avaliação da actividade antitumoral (tinyurl.com/ymftbw2s): este trabalho avaliou fracções de T. Catharinensis contra linhas tumorais de melanoma e cancro do pulmão; isolou o alcalóide que apresentou actividade inibitória e indução de apoptose. Texto: Celso Chambisso • Fotografia: Mariano Silva

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