O turismo nacional foi apontado como um dos sectores com maior potencial de crescimento e de diversificação económica, mas continua a enfrentar desafios estruturais que travam a sua contribuição para o desenvolvimento sustentável do País. A constatação foi feita no painel subordinado ao tema “O Turismo em Moçambique como um Instrumento de Desenvolvimento Sustentável”, realizado no âmbito da 60.ª edição da Feira Internacional de Maputo (FACIM).

O director nacional de Turismo, Claire Zimba, destacou que Moçambique recebeu, em 2024, cerca de um milhão de turistas, que geraram receitas próximas de 13,4 mil milhões de meticais (210 milhões de dólares), representando apenas 4% do Produto Interno Bruto (PIB). “Se acreditamos que o turismo é o nosso ‘gás e petróleo renovável’, então temos de garantir que este sector tenha maior expressão na economia nacional”, afirmou. Para o dirigente, a baixa formalização dos operadores turísticos e a ausência de registos consistentes comprometem não apenas a monitoria da actividade, mas também a definição de políticas públicas adequadas.

Yassim Amuji, representante da Associação de Turismo de Vilankulo (ATUVIL), sublinhou a resiliência do sector em algumas regiões, apesar dos constrangimentos globais. “Em 2019, Vilankulo registava cerca de 60 mil passageiros; em 2024, recebemos 90 mil. Isso mostra que, quando existem condições, o turismo cresce de forma natural”, afirmou. O responsável referiu ainda que os operadores locais contribuem com receitas fiscais que crescem entre 25% e 30% ao ano, destacando a importância de replicar experiências de sucesso noutras zonas do País.

O empresário frisou, no entanto, que a falta de conectividade aérea e terrestre continua a ser uma barreira para a expansão do turismo. “Precisamos de voos directos que liguem Moçambique a capitais estratégicas da região e da Europa. A título de exemplo, um voo directo de Joanesburgo para Vilankulo é suficiente para dinamizar o destino. No entanto, o acesso continua limitado e caro”, afirmou.

O tema da promoção internacional foi igualmente debatido. Vários intervenientes defenderam que o País precisa de investir em campanhas consistentes de marketing turístico, seguindo modelos de países como Portugal e África do Sul. “Não basta promover o País de forma genérica. Temos de apresentar ao mundo as nossas praias de águas cristalinas, as ilhas, as reservas de fauna bravia e o nosso património cultural. São estes destinos concretos que captam a atenção dos turistas e investidores”, destacou Noor Momade, PCA da COTUR.

Para o responsável, a recente política de isenção de vistos para cidadãos de alguns países foi considerada um avanço, mas insuficiente. Houve recomendações para que a lista de países beneficiários seja ampliada, incluindo mercados de elevado poder aquisitivo, como Austrália, Canadá e Japão. “As barreiras de entrada desincentivam turistas que poderiam ter um impacto económico elevado. Temos de pensar o turismo como indústria competitiva à escala global”, reforçou.

Para Claire Zimba, a baixa formalização dos operadores turísticos e a ausência de registos consistentes comprometem não apenas a monitoria da actividade, mas também a definição de políticas públicas adequadas

Outro ponto levantado no painel foi a necessidade de planificação estratégica integrada. Os oradores defenderam que o turismo deve ser pensado não apenas como fonte de receitas, mas como motor de inclusão social e desenvolvimento comunitário. “As populações locais têm de ser parte activa do processo. A integração de comunidades nos projectos turísticos é fundamental para que os benefícios cheguem às famílias e reforcem a aceitação social”, afirmou Claire Zimba, acrescentando que as cadeias de valor precisam de incluir agricultura, artesanato e outros serviços fornecidos localmente.

Foram ainda discutidas oportunidades pouco exploradas, como o aeroporto de Chongoene, que poderia ser transformado num hub turístico para as praias e lagoas do sul do País, e o enorme potencial de Nampula e da Ilha de Moçambique, património mundial da UNESCO, mas ainda com baixa expressão turística.

Os oradores convergiram na ideia de que o turismo pode tornar-se num dos motores da economia moçambicana, desde que haja maior articulação entre o Estado e o sector privado. O fortalecimento das infra-estruturas, a melhoria das condições de segurança e saúde, a promoção internacional direccionada e a criação de mecanismos de financiamento para operadores locais foram algumas das recomendações deixadas no painel.

“Moçambique tem um património natural e cultural único. O desafio é transformar este potencial em oportunidades concretas de emprego, receitas e bem-estar para as comunidades. Só com uma visão partilhada entre o Estado, o sector privado e as populações será possível colocar o turismo no lugar que lhe pertence na economia nacional”, concluiu Noor Momade.

Texto: Nário Sixpene

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