Num momento em que Moçambique enfrenta desafios climáticos significativos e crescentes exigências energéticas, a FACIM 2025 tornou-se palco de um debate técnico e estratégico sobre o futuro da energia no País.

O painel promovido pela Electricidade de Moçambique (EDM), subordinado ao tema “O Papel da EDM na Industrialização do País: Acesso Universal e Segurança Energética na SADC”, reuniu representantes governamentais, especialistas e gestores do sector para reflectirem sobre soluções estruturantes.

A intervenção de Susana Gómez, assessora no Ministério dos Recursos Minerais e Energia e gestora sénior no Tony Blair Institute, trouxe à tona a necessidade de integrar a variável climática nos processos de planificação energética. “Focar no âmbito das mudanças climáticas é importante na base de planificação para garantir a resiliência com estudos de impacto ambiental e social, que estejam conformes com a legislação nacional e com as melhores práticas internacionais”, defendeu.

Na sua visão, a diversificação da matriz energética deve acompanhar-se do aproveitamento de recursos já identificados e da aposta em soluções fora da rede, como as mini-redes, que considerou “um factor importante para garantir a segurança das mudanças.”

Por sua vez, Amilton Alissone, assessor do conselho de administração da EDM, destacou que o País dispõe de um plano director de energia que já reconhece a necessidade de múltiplas fontes de geração. Sublinhou que a EDM “tem de assegurar que todas as fontes sob a sua posse estejam disponíveis” para responder à crescente procura energética, agravada pelas alterações climáticas, que “já retiram cerca de 500 megawatts do nosso sistema.”

Alissone realçou ainda a importância de planear o uso estratégico de recursos como o gás natural em momentos de emergência e instou o Governo a garantir que esses activos estejam acessíveis à EDM. “Não devemos cair no problema de, numa altura de emergência, termos recursos energéticos inacessíveis que poderiam aliviar o sistema”, advertiu.

A modernização das infra-estruturas também foi apontada como pilar essencial. Neste contexto, Luís Amado, director de distribuição da EDM, destacou o esforço da empresa na construção de redes mais resilientes, afirmando que “hoje estamos a usar postes de madeira muito mais robustos e, em zonas críticas, passámos a usar postes de betão e metálicos.” Salientou igualmente a preparação logística para responder a desastres naturais, através do pré-posicionamento de equipamentos em locais estratégicos antes da época ciclónica.

a energia é um dos alicerces fundamentais do futuro económico de Moçambique.

Além disso, Amado revelou progressos concretos no acesso à energia. “Saímos dos 32% de cobertura on-grid e hoje estamos a cerca de 53%, sendo que o acesso fora da rede já ultrapassa os 62%”, avançou. Contudo, sublinhou a necessidade de garantir tarifas equilibradas para assegurar a sustentabilidade do sistema e a manutenção dos novos clientes.

O painel concluiu-se com consenso em torno de três grandes prioridades: fiabilidade no fornecimento, capacitação de quadros com domínio da transformação digital e criação de condições para atrair investimento privado. A industrialização do País, frisaram os intervenientes, passa por uma matriz energética robusta, diversificada e resiliente.

Sobre o evento

A FACIM 2025 decorre de 25 a 31 de Agosto no Centro Internacional de Feiras e Exposições de Ricatla, no distrito de Marracuene, e afirma-se como a principal montra multissectorial de Moçambique e um dos maiores palcos de negócios da África Austral. Com a participação de mais de 3050 expositores de 26 países e a expectativa de atrair cerca de 65 000 visitantes, o certame constitui uma plataforma estratégica para a promoção da produção nacional, atracção de investimento e estabelecimento de parcerias comerciais.

Nesta edição, a província de Gaza foi designada “Província de Honra”, destacando-se pelo seu potencial nos sectores agrícola e pesqueiro, enquanto a África do Sul assume o estatuto de “País de Honra”, em reconhecimento do seu papel nas trocas comerciais com Moçambique.

Texto: Felisberto Ruco

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