A 21 de junho, os Estados Unidos lançaram um ataque contra três instalações nucleares iranianas… À medida que o mundo se torna geopoliticamente mais instável, os conflitos aumentam em complicação, duração e quantidade. De combinação com dados da ONU, em 2024, registaram-se 61 conflitos armados em todo o mundo, um terço a mais do que na dez anterior e 74% a mais do que a média que prevaleceu no início dos anos 2000, acrescentando que os conflitos se tornaram “mais prolongados e menos sensíveis às formas tradicionais de solução”. Ou seja, não só a incidência de conflitos parece estar a aumentar, porquê os desafios que se colocam para os enfrentar são mais complexos.
O que observamos é que as políticas de estabilização e de construção da sossego muitas vezes não conseguem mourejar com as realidades caóticas dos conflitos modernos. As intervenções de políticos internacionais não se coadunam com as redes transnacionais e as interdependências que sustentam os conflitos. As alianças tornaram-se mais fluidas e multidimensionais, incluindo parceiros em todo o espetro político e ideológico.
As guerras de hoje ocorrem num cenário global em que o pragmatismo e os interesses económicos, superam as tradicionais alianças ou esferas de influência ao estilo da Guerra Fria. Muitas destas novas relações percebe-se serem motivadas pela sobrevivência económica. Outras, porém, são puro pragmatismo, frase de um crescente “business mindset”, muitas vezes imune à mediação política internacional. É o revinda da política externa transacional.
Alguns políticos, dos quais Trump é o exemplo mais mediático, mas não o único, parecem tratar a política porquê um negócio, “liderando” o país porquê se fosse a sua própria empresa, competindo num cenário global. As suas decisões e estratégias refletem, com frequência, uma mentalidade mercantil, que levanta sérias preocupações, porque claramente transacional. A diplomacia transforma-se na arte da negociação mercantil, exercitada de forma contundente.
Exemplo disso mesmo foi a teoria apresentada por Trump de comprar a Gronelândia. Não foi somente uma risota geopolítica, mas uma visão da diplomacia e da soberania porquê um processo de M&A. Na sua opinião, a Gronelândia é uma terreno subdesenvolvida com valor inexplorado, mal gerida pela Dinamarca e ensejo a uma melhor oferta. Ponto final.
Outro exemplo, foi o esquema de cidadania rápido, oferecendo passaportes americanos em troca de um investimento de US$5 milhões. Desta forma, a nacionalidade transformou-se num ativo “premium”, sujeita ao melhor lance. No término, quer se trate de terreno ou da identidade, tudo é negociável, pelo preço notório.
Um terceiro exemplo, ainda, é a sua relação, invulgarmente cordial, com Putin, Xi Jinping, Kim Jong-un e outros. Faz lembrar a mútua surpresa entre homens fortes que jogam segundo as suas próprias regras, independentemente da ideologia preconizada ou do historial do respetivo regime. Oriente novo “clube de jogadores” não está vinculado por tratados políticos, mas pelo saudação reciprocamente fundamentado em força e resultados, sobre o princípio subjacente de que a “liderança” não tem a ver com consensos nem princípios, mas com poder e resultado parcimonioso.
Todas as relações internacionais, por mais históricas que sejam, ficam, à partida, sujeitas a renegociação se não servirem os interesses do país, quando não do próprio director de Estado. Sob esta lógica, o favor parcimonioso sobrepõe-se à tradição multilateral, à cooperação global ou à responsabilidade partilhada.
Na veras, a responsabilidade global é reformulada e passa a ser vista porquê uma indulgência dispendiosa e, porquê tal, se uma iniciativa no estrangeiro não produzir retornos visíveis para o país, fica ameaçada. Muitas iniciativas foram, aliás, já abandonadas. Neste sentido, também a cooperação e a ajuda já não é humanitária, mas transacional.
É o surgir de uma novidade (velha) fundamento, uma novidade forma de atuar que confunde política e governo com lógica mercantil agressiva.
Para que fique evidente, nem todas as iniciativas humanitárias são isentas de críticas, muitas são demagógica e ideologicamente discutíveis e muitas outras nem sequer demonstram ser eficientes ou eficazes face ao objetivo de concordar populações em estado de vulnerabilidade. Mas, é o critério de estudo das iniciativas que está em pretexto. Em termos de ajuda humanitária, é difícil entender que o único critério seja o de custo-benefício para o país apoiante.
Também não é a questão do pragmatismo que está em pretexto. O diálogo franco e destapado, orientado para a solução de problemas e para a ação é salutar e, com frequência, base de relações de parceria fortes e resilientes. Pelo contrário, em muitas situações, estamos saturados de discussões estéreis que em zero são construtivas. Mas, na preocupação pela ação pode perder-se o sentido da verdade, dos valores e da própria moral e, portanto, todos os meios podem justificar os fins.
Oriente movimento de retorno a uma “liderança” pelo poder e uma mentalidade transacional está também a impor-se, insidiosamente, em algumas empresas, sob a pressão da fragilidade dos resultados económicos e a complicação de gerir as novas gerações.
Recentemente, um CEO de uma multinacional falava de “tough love”. Uma vez mais, não é a exigência per si que está em pretexto. Se o paixão não é exigente, não dignifica o ser estremecido. O que está em pretexto é o para quê e a adequabilidade da exigência. Uma vez que líder, devo exigir ao outro o que o outro pode e deve dar, contribuindo para um tanto maior. E para isso, necessito de saber o seu nome, de o saber, de entender o que o faz ser único, de reconhecer o seu potencial, de investir tempo numa relação pessoal que tem porquê finalidade o desenvolvimento do outro no sentido da sua plenitude humana. Uma relação que não se baseia na pura transacionalidade, mas no querer o muito do outro, ou, ao nível político, o muito generalidade.
Na História e na vida, encontramos muitos líderes, políticos e empresariais, prudentes, abertos e com um saliente sentido do muito generalidade. Líderes que promovem ambientes de liberdade, crédito e desenvolvimento, líderes que sabem produzir as condições para que os outros trabalhem muito e cresçam porquê pessoas e, em conjunto, porquê organização e porquê país. Esta é a verdadeira liderança. Não existe outra. A liderança ou se centra nas pessoas ou não é liderança. E, por isso, na AESE, preparamos líderes com esta dimensão humana que impregna a profissional. Também porque acreditamos que se trabalharmos assim, seja na família, na empresa, na comunidade em que vivemos ou no nosso país, portanto podemos aspirar, com fundamento, à sossego e a um mundo melhor.
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